quarta-feira, 1 de junho de 2011

BREVE HISTÓRICO

O Construtivismo Russo reflete de muitas maneiras um contexto histórico marcado por grande sofrimento, inovações tecnológicas e industriais, uma mudança de paradigma marcada pela rapidez e eficiência e mais, uma inovação política sem precedentes na História.

É um período cuja marca indelével é a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), desestruturando vidas, separando pessoas, matando e mostrando a face destrutiva das novas conquistas industriais: pela primeira vez aviões são usados em combate (CANTON, 2002, p. 37).

A Rússia é uma nação assolada por guerras de fronteiras, seguida pelo envolvimento na Primeira Guerra Mundial, marcando um período de mortes, desabastecimento e fome, agravado por uma situação trabalhista que beira a escravidão, mantendo camponeses e operários na mais absoluta pobreza, estimulando greves e revoltas populares; por outro lado, a decadência do regime czarista é determinada por uma política interna desastrosa capaz de fazer acordos com os trabalhadores para em seguida, alcançados os objetivos, descumpri-los e, no limite, abrir fogo contra os trabalhadores rebelados. O próprio poder do Czar é questionado e progressivamente cerceado pela Duma, Parlamento russo. No começo de 1917 o Czar é deposto iniciando-se a Revolução Russa, que será palco de intensa guerra civil, terminando com a vitória dos bolcheviques e a instauração da ditadura do proletariado.

Neste clima de desespero, rebelião e luta surge o Construtivismo Russo que vem propor uma visão da arte para o social e, alinhada à novidade política e social que então se origina e impõe, busca reinventar a arte, rejeitando a representação realista. Para tanto, utiliza-se de uma representação geométrica, com formas simplificadas que devem retratar um novo ser humano, em um mundo industrial, rápido e eficiente, onde até a guerra se faz com máquinas; projeta-se assim uma sociedade igualitária na qual todas as pessoas têm os mesmos direitos e deveres (CANTON, 2002, p. 55).

No livro Construtivismo, de George Rickey, há um estudo detalhado sobre as origens e evolução do Construtivismo, bem como seus desdobramentos, os herdeiros e suas obras. Chama atenção o trecho sobre o contexto da publicação do manifesto:

Esse manifesto foi um grande evento em Moscou. Para entendermos a situação, devemos nos imaginar em Moscou em 1920. A guerra civil assolava o país. Havia uma guerra contra a Polônia em nossas fronteiras. E havia fome na cidade, que aliás se encontrava sob lei marcial. De repente, na manhã de 5 de agosto, nos espaços reservados nas ruas para ordens e decretos governamentais, apareceram cartazes intitulados O manifesto realista. É importante notar que nos anos anteriores o povo se acostumara à palavra ‘manifesto’ para designar um anúncio oficial, por parte do czar, de uma proclamação em favor do povo. Naturalmente, o povo de Moscou apressou-se em ler o manifesto, entendendo se tratar de um decreto governamental. Largas multidões se reuniram em cada esquina onde o manifesto fora afixado, e, em alguns lugares, organizaram-se até mesmo assembléias... Os círculos intelectuais de Moscou leram, entenderam e debateram-no. Notícias de que os artistas tinham também organizado uma exposição na avenida Tverskoy ao ar livre atraíram a multidão, e somente com o cair da noite é que ela finalmente se dispersou. Debates sobre o conteúdo do manifesto tinham ganho as ruas, e depois prosseguiram no interior das residências estudantis e nas salas de palestras das Vkhutemas. Todos sabiam que Gabo era o autor do manifesto, e ele, sozinho, naquele momento, tinha de rebater os ataques críticos e elucidar o conteúdo do texto para os interessados (RICHEY, 2002, p. 49).

Desta forma, tendo em vista o aspecto histórico e social, o que mais chama atenção é o envolvimento ideológico do Construtivismo Russo, de caráter marxista, com o novo regime socialista implantado pela Revolução Russa. Segundo Aaron Scharf, o construtivismo tão pouco pretendia ser uma arte, mas apenas um instrumento de propaganda e difusão do regime socialista.

Em seu âmago, era acima de tudo a expressão de uma convicção profundamente motivada de que o artista podia contribuir para suprir as necessidades físicas e intelectuais da sociedade como um todo, relacionando-se diretamente com a produção de máquinas, com a engenharia arquitetônica e com os meios gráficos e fotográficos de comunicação. Satisfazer as necessidades materiais, expressar as aspirações, organizar e sistematizar os sentimentos do proletariado revolucionário – eis o objetivo: não arte política, mas a socialização da arte (STANGOS, 1991, p.116).

Este era, digamos, o lado construtivista utilitário seguido por Vladimir Tatlin, autor de Contra-relevo de Canto, 1915.

Outro exemplo deste viés ideológico marxista e utilitário é a obra, eminentemente propagandista de El Lissitzky, A História de Dois Quadrados, de 1922.

Porém, há entre os construtivistas aqueles cuja arte não-figurativa busca a poesia − livre de ideologias, conforme proclamado por Kasimir Malevitch e seu Suprematismo. É o caso dos irmãos Pevsner, sendo o mais novo, Naum Gabo, autor do Manifesto Realista de 5 de agosto de 1920.

Há, portanto, duas correntes no Construtivismo Russo, divididas não pela forma, pois ambas buscavam a arte não-figurativa, utilizando-se de formas geométricas simples e de materiais industriais, mas pela intenção e objetivo, pelo engajamento ou pela busca espiritual. Conforme Rickey

Há, portanto, duas correntes no Construtivismo Russo, divididas não pela forma, pois ambas buscavam a arte não-figurativa, utilizando-se de formas geométricas simples e de materiais industriais, mas pela intenção e objetivo, pelo engajamento ou pela busca espiritual. Conforme Rickey

Em 1920, após a revolução as linhas artísticas haviam sido traçadas em Moscou. A discussão de projetos e filosofias de arte era bastante aberta, apesar das controvérsias. De um lado, achavam-se os que acreditavam que os trabalhadores da arte deveriam servir às massas, deveriam ser compreensíveis a todos e usar técnicas e materiais industriais. Tal posição era incitada por Tatlin, Rodchenko e, posteriormente, por El Lissitzki, que tendo conhecido Malevitch em 1919 aderira à ideologia do ‘objeto’ no ano seguinte. Na opinião de Gabo, Tatlin não era um pensador, não tinha nem a experiência nem a formação para o trabalho ‘construtivo’; brincava com as experimentações, mas era desajeitado e possuía lacunas técnicas. Antoine Pevesner comentou posteriormente, em entrevista de 1956, que, apesar de todas as teorias utilitárias, Tatlin nunca fizera um projeto que pudesse ser executado. No entanto, ele e seus seguidores atrelaram sua posição estética ao marxismo de forma tão eficiente que atacá-las era como atacar um dogma. Na verdade, o status quo de Tatlin era tão forte que ele foi encarregado de projetar o imenso Monumento para a III Internacional (RICKEY, 2002, p. 45).

Durante a década de 1920 Tatlin e os seus permaneceram à frente do movimento das artes na Rússia, construindo a estética desta nova sociedade marxista em oficinas onde davam aulas, todos atuando em múltiplos campos, uma vez que, para eles, não existia “arte superior”. Por outro lado, a pintura e a escultura não foram totalmente descartadas, mas passaram a ser vistas como parte de um processo que culminaria na construção de objetos úteis (STANGOS, 1991, p.118). O regime, porém, começa a endurecer-se; em 1921 Pevsner, Kandinsky e Malevitch tiveram seus estúdios fechados subitamente. Gabo, prevendo a censura à livre expressão na União Soviética, recebeu autorização para viajar para Berlim e não retornou (RICKEY, 2002, p. 51).

Nos anos 30, sob o governo de Stálin, todas as pesquisas da arte moderna foram proibidas, consideradas formas de rebeldia, restando apenas o chamado realismo soviético, uma arte convencional, que reproduz a realidade exatamente como ela é (CANTON, 2002, p. 56).


BIBLIOGRAFIA:

CANTON, Katia. Retrato da arte moderna: uma história no Brasil e no mundo ocidental (1860-1960). São Paulo: Martins Fontes, 2002.

JANSON, H. W. Iniciação à história da arte. 2ªed. São Paulo. Martins Fontes, 1996.

PEDROSA, Mário. Forma e percepção estética: Textos escolhidos II. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

RICKEY, George. Construtivismo – origens e evolução. São Paulo: Cosac & Naif, 2002.

SCHARF, Aaron. Construtivismo IN: STANGOS, Nikos. Conceitos da arte moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

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